PREFÁCIO DO LIVRO "RETRATOS DE UMA ÉPOCA" (AUTOR EDUARDO DIAS)

Uma trajetória de sucessos profissionais. Tóride Sebastião Celegatti nasceu em Mogi- Mirim, SP, em 25 de maio de 1937. Artista plástico nato, desde os 7 anos iniciou com desenhos a lápis e nunca mais parou porque encontrou nas artes, terreno fértil para expressar seu grande potencial criador. Sua sensibilidade artística se manifesta através de pinturas em estilo acadêmico em óleo sobre tela, espátula, aquarela, acrílico, grafite e nanquim. Não segue uma escola específica, mas desenvolve uma técnica própria tendo como ídolos os grandes mestres da Renascença. Se destaca como um dos mais importantes escultores da região pela perfeição com que utiliza o gesso, mármore, bronze, argila e turfa. Em restaurações, se esmera na riqueza dos detalhes das peças de Arte Sacra e mobílias.
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É por isto que iniciativas como esta devem ser valorizadas.Temos a possibilidade de resgatarmos parte de nossa história tão pouco resguardada e que aqui é tratada de forma muito real.Por isso sinto-me lisonjeado por poder escrever sobre arquitetura num livro dedicado a Mogi Mirim.Creio que nós, cidadãos Mogimirianos, devemos reavivar a história de nossa cidade, para que o que se tem hoje não se perca e que futuros cidadãos possam conhecê-la e, conseqüentemente, se orgulhar dela.

A cidade de Mogi Mirim é uma das mais antigas do estado de São Paulo.Nascida da parada dos Bandeirantes que iam para o interior do Brasil em busca de ouro, logo se tornou vila e referência para os povoados da região. No século XIX teve importante papel na história férrea brasileira na época do ciclo do café.Assim, Mogi Mirim sempre foi vista como uma cidade bem desenvolvida e com uma população de alto poder aquisitivo.Isso acabou refletindo na arquitetura local, onde havia a diversidade de estilos e técnicas construtivas.Hoje percebemos o enorme interesse dessa arquitetura cristalizada na solidão do Planalto e só lamentamos pouco ter-se restado e documentado.Nessas construções ainda estavam expressas as relações entre o conhecimento e o meio ambiente.

As poucas casas bandeiristas que tenham restado ou as moradias urbanas são incapazes de confidenciar aos curiosos desse passado os sucessos do dia-a-dia bandeirante, quando todos os homens válidos viviam para desbravar florestas, ou cultivar em roças distantes ou para a colonização dos índios ou ainda na busca pelo ouro.Nem mesmo podemos suspeitar como se dava a vida cotidiana da família meio índia, meio portuguesa, meio espanhola.Somente poucas pesquisas arqueológicas nos trazem alguma luz para clarear nossas dúvidas.

A taipa de pilão foi a técnica usada nas primeiras construções porque na região não havia pedras,nem calcários que pudessem sugerir algum tipo de alvenaria,como por exemplo,de tijolos.As madeiras de lei, relativamente afastadas, necessitavam de transportes, e não devemos nos esquecer de que na época transportar toras, vigas e tábuas era difícil em terras sem estradas boas.

Assim a taipa de pilão com todas as suas limitações foi usada nas casas Bandeiristas com características que iriam se manter nas casas da nova cidade que se constituía.A taipa de mão (pau-a pique) somente era usada nas repartições internas das moradias. A implantação da casa se dava na divisa do terreno com a entrada principal da casa dando diretamente na rua.Ao fundo do lote se localizava um quintal de terra batida remetendo à vida rural. As casas eram protegidas por profundos beirais que se prolongavam do telhado de duas águas.Janelas miúdas,portas baixas,predominância dos cheios sobre os vazios.Tudo muito simples e singelo e o povo se acostumou a seguir sempre o mesmo estilo, de modo que não havia outras hipóteses para as construções.

Em São Paulo os governadores gerais (Brasil Colônia),sempre portugueses afidalgados,traziam em suas viagens os auxiliares que podiam ajudá-los a melhorar as condições de vida da cidade abandonadas com o passar dos anos.O mais famoso desses técnicos foi João da Costa Ferreira.Dizem os documentos que ele ensinou a população a construir com mais bom gosto suas casas e até a pintá-las de maneira diferente.Esse Homem ficou marcado como sendo o profissional que ajudou a velha cidade de taipa a assumir uma nova fisionomia ou pelo menos antecipou o processo de transformação da paisagem urbana até então.

Começou a surgir edificações apresentando alguns ornamentos, principalmente molduras em “peito de pombo” sobre as envasaduras recuadas.Tabeiras ou cimalhas de madeiras pintadas logo abaixo dos beirais, agora forrados e com os cachorros escondidos. A cidade usando deste Pombalismo acaipirado tentava mudar suas características arquitetônicas.

Nas casas velhas eram feitas adaptações possíveis.Já nas novas edificações a liberdade era maior.As janelas ficaram mais próximas umas das outras.Os pequenos caixilhos muito afastados entre si era o símbolo do passado e muita gente arrebentou a taipa para ficar dentro desta moda.

Em pouco tempo esse modo de expressar advindo do Pombalismo trazido especialmente por engenheiros militares condicionados pelas obras de reconstrução de Lisboa (Portugal), se mesclou com as regras de composição do Neoclassicismo introduzido no Rio de Janeiro pela Missão Francesa.Por reflexo, este último acabou chegando aqui e foi incorporado pela nossa arquitetura.

A implantação em nossa cidade da linha de trem da Cia Mogiana trouxe grande avanço para arquitetura da cidade.Conhecemos o tijolo, a argamassa, os telhados recortados e muitas outras técnicas que fizeram com que uma nova cidade fosse construída no lugar das antigas casas de taipa.A alvenaria de tijolos e outros materiais como cobre ou ferro zincado,perfis metálicos e telhas planas, propiciaram o surgimento de vários estilos arquitetônicos.Era o ecletismo, mas principalmente o Neoclassicismo despoliciado que chega ao ápice do desregramento.

Essas transformações também chegaram às igrejas, que inicialmente eram modestas,mas logo foram reformadas e enfeitadas.Particularmente isso se deu por causa do enriquecimento da população com a produção cafeeira.A substituição da velha Matriz de São José pela nova Igreja em estilo neogótico, por volta de 1930, era o sinal de que a Igreja estava acompanhando o surto progressista com todas as suas forças.

Mas foi, principalmente, o café também que estabeleceu diferenças qualitativas entre as residências da população rica e as demais.Até então as diferenças eram simplesmente quantitativas, as casas distinguiam-se só pelos seus tamanhos. “A técnica construtiva era a mesma, os pormenores e arremates iguais,e isso dentro de antiqüíssimas tradições portuguesas”-conforme José Augusto França.

Os grandes sobrados eram a moradia de famílias ricas e as modestas casas térreas eram a moradia da classe média.Essas diferenças qualitativas é que permitiram distinguir o caráter da classe média paulista.Em Mogi Mirim, por exemplo, principalmente nos tempos da imigração e do início do enriquecimento de pessoas de fora, a classe média contribuiu para o patrimônio arquitetônico quando construiu grande quantidade de casas que eram imitações dos grandes palacetes neoclássicos das famílias ricas.

Hoje, esses palacetes e as muitas outras casas de igual importância estão se tornando raros devido às demolições desenfreadas e passam despercebidos de estudiosos de nossa arquitetura porque faltam registros e definições das autorias das edificações.Tais exemplares não deixam de ser documentos representativos de esforços populares aliados a dificuldades materiais mas com imprescindível intenção artística. Quando esteticamente apreciadas essas casas, edifícios, igrejas, devem ser estudadas em profundidade e até preservadas porque são legítimos segmentos de nosso Patrimônio Cultural.E é por isso que obras como esta constitui um início de valorização do que se construiu ao longo dos tempos e incentiva cidadãos mogimirianos a documentar bens culturais aparentemente inexpressivos, mas ricos de interesse antropológico e muitos deles injustamente taxados de desinteressantes artisticamente.

Continuando a cronologia das moradias urbanas,as residências feitas de tijolos,levantadas desde meados do século XIX até os anos vinte do século XX,anos em que,em São Paulo,a força do dinheiro do café mesclou-se ao poder da economia industrial.A crise de 1929 talvez tenha provocado uma queda nas construções paulistas e a partir dessa queda podemos dizer que se iniciou, verdadeiramente, o império do concreto armado,até então pouco empregado entre nós.Somente nos anos 30 é que foi empregado sistematicamente nas residências de classe média,sempre escamoteado por revestimento e tratamentos plásticos ligados agora a um novo estilo em moda,o art-déco.

O Neoclassicismo e suas decorrências perduraram com menor ímpeto, no entanto, abriu-se um novo capítulo na arquitetura paulista que iria propiciar o advento do Modernismo.Exige-se então as últimas versões da técnica construtiva,de modo especial o concreto armado racionalmente calculado.Com paredes lisas, desnudas de qualquer ornamentação, simbolizaram o exaurimento das decorações estilísticas.As moradias eram vistas como produtos do habitar, extremamente funcionais ao cotidiano familiar não mais condizendo com a idéia de ornamentos.Também sua técnica estrutural era muito avançada,porém simplificada,separando a estrutura da vedação,com isso se conseguia grandes vãos internos e janelas em cantos das paredes.A libertação de qualquer regra ou estilo era evidente.Infelizmente aqui em nossa cidade foram poucas pessoas que tiveram esta visão sobre estas possibilidades.A arquitetura de comercialização tomou conta de nossas ruas e nem nos demos conta.Edifícios simplesmente adaptados para alguma função sem levar em conta necessidades x função.Esqueceram de como uma edificação, por si só,pode valorizar uma área comercial ou como uma edificação bem solucionada pode ser extremamente confortável.

Já são outros tempos.Tempos de comunicação fácil, do cinema, da televisão, celular, Internet e das revistas de decoração que tudo condicionam ao gosto consumista.Hoje se copia muito.Fazem mais de setenta anos que a classe média não inova.Aumentam as faculdades de arquitetura que pouco acrescentam à formação dos muitos profissionais que atuam no mercado de trabalho.As conseqüências das flutuações do poder aquisitivo das pessoas, aliados às variáveis da economia do país,especulação financeira,busca por altos lucros levam aos altos índices de arquitetos desempregados e desmotivados para reverterem esta situação.

Portanto muitos são os motivos que fazem com que um Patrimônio Cultural como os da cidade de Mogi Mirim esteja jogado no chão.Em seus lugares ergueram-se quatro paredes e uma cobertura simples, desprovida de qualquer preocupação artística ou romantismo.Quando inovadoras, as soluções arquitetônicas são diferenciadas: uma placa de aluga-se ou espaços vazios para tornarem estacionamentos ou aguardando valorização financeira. As áreas centrais são as mais visadas.Há maior fluxo de veículos, comércios,e cresce o medo do tombamento histórico pelos proprietários destes imóveis.Infelizmente estão nas mãos do mercado imobiliário, que em outras épocas não exerciam tanta pressão transformadora na cidade.

Levando em conta as mudanças e dados aqui por mim descritos espero ter contribuído para que este livro seja um brado de alerta e que sensibilize os jovens interessados na conservação do que restou do nosso Patrimônio Cultural.Pois a melhor forma de nos desenvolvermos de modo saudável é respeitando e aprendendo com o passado.

EDUARDO DE ALCÂNTARA DIAS
Arquiteto e Urbanista
Mogi Mirim,19 de Abril de 2005
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